Sábado, 24 de julho de 2021
A manobra é agora ou nunca

Por Francisco Cesar Monteiro Gondar

No decorrer dos anos 60, eu estudava no Colégio Batista e todo mês de setembro, nos jogos da  primavera, os colegios do Rio de Janeiro disputavam diversos  torneios intercolegiais, em diversas modalidades esportivas e certa vez, ocorreu algo inusitado em um jogo de basquete entre o Colegio Batista e o colegio visitante ,Visconde de Cairu,  jogo este que marcava a inauguração de uma nova quadra de esportes..

O público era numeroso e o  Batista vencia o  Cairu por 8 x 0  em apenas 3 minutos de jogo. Em determinado momento, um atleta do Visconde de Cairu, arremessou a bola que ficou parada sobre o aro da cesta, ou seja a bola não caiu e constataram que as dimensões da cesta eram menores do que a bola, sendo assim, seria impossível o time visitante,  marcar qualquer ponto.

Aquele episódio foi muito engraçado para quem assistia e trágico para quem organizou o evento. O publico até que gostou e se divertiu muito com o ocorrido e o jogo evidentemente foi anulado.

Agora voltando a nossa Marinha Mercante, me ocorreu um fato paralelo em um pequeno porto europeu, situado no mar do norte.  O nosso navio era um Lady da Aliança , semi-carregado com pedras de granito, procedente da Durban na Africa do Sul.

Ao chegarmos à barra desse pequeno porto,   entramos na preamar de sizigia com muita dificuldade, arrastando no fundo, passamos um pequeno canal apertadissimo, constituido de dois pares de boias, entramos por uma eclusa cuja largura era  um pouquinho maior  do que a boca maxima do navio  e finalmente chegamos ao cais para descarga

Aaquela entrada foi mais uma aventura do que propriamente  uma manobra. Fizemos um protesto clasificando o porto como “non safe” e sub-dimensionado para receber navios tipo SD 14, pois entramos literalmente arrastados pelos dois rebocadores.

O canal constituido de dois pares de boias não obedecia em nada as recomendações internacionais e dentro da comporta,  sem muito exagero, cabia um pouco mais que uma resma de papel entre o costado e o paredão da eclusa, ou seja era dimensão justa e todo navio do porte de um Lady feria seu costado sobremaneira..     

A descarga do granito foi tranquila e sem contratempos, contudo , quando recebemos o plano de carga para aquele porto, constatamos que seria possivel  carregar somente 40% da carga, posto que se recebessemos a carga total, o navio passaria do calado maximo, sem condições de demandar o canal de saida. Vimos que era primordial deixar aquele porto com o navio mais leve, porquanto só poderiamos  contar com a maré de lua no mes seguinte..

Os afretadores, consignatários e até mesmo as Autoridades Portuarias, entendiam que era possivel e seguro embarcar toda carga e como eu havia recusado, eles queriam mesmo era esganar o Comandante, alegando que sempre carregaram aquela quantidade de carga sem maiores problemas..

De todo esse debate, a princípio , ficou  combinado de carregar  apenas 40% da carga, depois de efetuar uma nova avaliação da situação. Após o embarque de 40% dos Big Bags o navio atingiu o calado limite e com a lavratura  de um novo Protesto Maritimo,.paralizei as operações.

Pela primeira e única vez na minha carreira tive que interromper o carregamento e quebrar uma cláusula do contrato de afretamento, sob a alegação de que atingimos o calado máximo de segurança e que o porto era sub- dimensionado para nosso navio., ou seja, não comportava navios com aquele porte.

Evidente que ocorreu um debate caloroso com muito desentendimento. O navio atrasou sobremaneira. Todas as flechas eram apontadas para mim, mas mantive a calma e o firme proposito de não carregar mais o navio por motivos de segurança.

Após muito debate as autoridades finalmente tomaram a inciativa de efetuar uma sondagem na franquia e na entrada do porto, com a certeza ou na  intenção de  desmentir o comando e sobretudo alegar falta de cooperação..

O serviço de hidrografia local refez uma rigorosa batimetria em toda a area, e para surpresa  geral, encontrou menores profundidades em diversos pontos  importantes e a pior constatação foi que  a largura daquele canal apertado, de dois pares de  boias, foi  limitada e reduzida sensivelmente a uma  distancia menor que a boca maxima do nosso navio, ou seja,  a  distancia entre as poitas, que sustentam as boias,  ficou  menor que a boca maxima do navio. Acredite se quizer.

Portanto, o canal de passagem  era menor que a boca máxima do navio e o  mais engraçado é que o navio ja estava dentro do porto. O que fazer então ?

As autoridades, agentes e demais representantes a partir daí começaram a  entender a minha angustia, pois o  problema maior não era cumprir ou descumprir um contrato, mas sim retirar o navio do porto.

De pronto ficou entendido que devido a grande limitação do porto, nomeado pelo afretador, o embarque de somente 40% da carga não caracterizava nenhuma quebra contratual e a  grande preocupação minha e de todos  agora seria sair com o navio, uma vez que o porto estava mais  assoreado e com o canal bem reduzido

A manobra foi bem estudada, cuidadosamente entre comando, praticagem e autoridades e com certeza teriamos que esperar uma nova maré de lua. Evidente que fizemos de tudo para tornar o navio o mais leve possivel, aliviando um residual de lastro , aguada e miscelâneas, tomando também o devido cuidado de não criar uma grande area vélica para não ser prejudicado pelos ventos reinantes, bem como manter grande parte da porta do leme molhada, para facilitar o governo com pouca marcha em área muito restrita enfim, todos os   parâmetros foram levados  em conta e todos os cuidados, foram tomados para que  os efeitos contrários ao nosso proposito fossem minimizados.

Passamos mais duas semanas atracados e eis que chegou o grande dia, o dia  da saida do navio, ou melhor, a grande noite.

O pratico ao subir a bordo se dirigiu a mim e falou:

– A MANOBRA É AGORA

E prontamente respondi

– Agora ou  nunca !!!  

A lua estava linda,  toda cheia, e  a natureza conspirou a nosso favor, pois a noite estava limpa, sem nuvens. O  dia escureceu o que podia, formando um  contraste para uma excelente visibilidade. O vento abrandou o que podia. O Pratico embarcou temeroso o que podia  e o Comandante idem . A maré tambem subiu o que podia. Os  rebocadores passaram os cabos e todos ficamos a  postos.  Enfim,  desatracamos e fomos nos arrastando sobre a lama ate a eclusa.

A entrada na eclusa, muito justa, foi um parto de elefante. O navio se encaixou dentro da comporta como se estivesse vestindo uma roupa tamanho unico e depois de muito risco no costado a primeira etapa foi concluida.

Descemos cerca de um metro e meio e quando as portas da eclusa foram abertas, estavamos ao nivel do mar, contudo o mais dificil ainda estava por vir, pois ao sair da eclusa tinhamos o impossivel pela frente,  o  maior desafio de todos  era passar por um canal menor que a boca do navio.. É algo quase que inacreditavel, me fez lembrar a bola maior que o diametro do aro da cesta. Estavamos diante de   uma missão dificil de cumprir  e como não tinhamos alternativa, combinamos a seguinte manobra com o Prático

– Vamos dar pouca marcha ao navio, escolher uma boia e colidir com ela e optamos em colidir nas boias verdes a bombordo onde o canal oferecia uma melhor batimetria.

E assim procedemos, saimos da comporta, entramos no canal um pouco inclinados , com marcha muito devagar adiante, colidimos com a primeira boia verde, paramos a maquina, com o seguimento tiramos popa da boia, demos maquinas adiante novamente e cinco minutos após, colidimos com a segunda boia verde , paramos a maquina,com o seguimento  tiramos  a popa da boia e acredite  passamos o canal, arrastando um pouco no fundo de lama, mas a principio sem danos maiores.

Sindamos todo navio  que permaneceu estanque e quando chegamos a barra  ouvimos  um grande grito de vitoria. Armadores, agentes, afretadores, consigntarios , autoridades , afinal, todos que assitiam a manobra do cais, gritaram euforicos como se  fosse um “finalmente conseguimos”.

Pela alegria geral parecia que todos venceram, mas estejam certos de que  somente um homem assumiu o risco de toda essa aventura, o Comandante

Na  descida do prático dissemos:

– Um dia, quem sabe, podemos ate voltar quando o seu porto ficar mais crescidinho e atingir a maioridade.

Esse episódio me lembrou muito aquele  jogo antológico de basquete no Colégio Batista, mas a grande diferença é que não ficamos presos no canal, tal como a bola que ficou parada em cima da cesta.

Fonte:
https://www.revistaintermarket.com.br/a-manobra-e-agora-ou-nunca/