Sábado, 24 de julho de 2021
Artigo: A Copa de 58 e o navio Lloyd Santarém

Quem viveu esses tempos não esquece essa copa. Aliás brasileiro algum, que viveu os anos dourados, não pode esquecer o ano de 1958, pois este foi  considerado como o ano que nunca deveria ter acabado.

Na esfera política o povo brasileiro amava o Presidente Juscelino Kubitschek, Brasília era um projeto cheio de esperanças. No Congresso vigorava o plano de JK , 50 anos em cinco, Adalgisa Colombo foi segundo lugar no concurso de MISS universo.

Nos esportes o Brasil foi campeão mundial de basquete, Maria Esther Bueno ganhava todas no tenis, e na Suécia, a Seleção Brasileira de Futebol brilhou nos gramados com Bellini, Nilton Santos, Didi, Vavá, Zagalo, Dida e depois Pelé com 17 anos, além do fabuloso Mané Garrincha.

Estavamos no mês de junho, dia de São João,  o Brasil entrava em campo contra a temível seleção francesa. Era um jogo de semifinal. Este, de fato, seria o jogo mais difícil daquela Copa do Mundo. No mesmo instante um navio do Lloyd Brasileiro, chamado Lloyd Santarém, entrava e atracava no porto de Recife e naquela dia nenhum marinheiro seguiu para a Rua da Guia. Ninguém pensou em diversões, farras e mulheres, pois todos queriam ouvir o jogo transmitido pelo rádio, cujas caixas de som ficavam afixadas nos postes pelas ruas da cidade.

O povo se amontoava debaixo dos postes e de punhos cerrados torcia como se estivesse presente ao estádio ou à beira do gramado. No pontapé inicial, os corações bateram mais fortes. A Seleção Brasileira precisava quebrar os paradigmas anteriores de 1954 e principalmente de 1950, pois até hoje o povo respira a antologia daquela derrota frente ao Uruguai, no Maracanã.

O  jogo começou tenso, mas o Brasil foi se distanciando no placar e garantiu uma vitoria históricasobre o selecionado frances por 5 x 2. As comemorações correram as cidades brasileiras e na grande Recife o povo festejava e bebia nas ruas, feliz pela classificação como finalista da copa.

É evidente que no dia seguinte foi uma ressaca geral e o único cozinheiro do navio Lloyd Santarém não apareceu a bordo para o café da manhã, bem como para os serviços diários. A tripulação ficou sem cozinha e naquele dia tiveram que improvisar o almoço e o jantar.

No dia seguinte, aparece o Silverio, o tal cozinheiro, que, ao ser chamado à presença do Comandante, respondeu:

– Faltei porque estava comemorando a vitória do Brasil.

O Comando do navio perdoou sua falta e não desestimulou o tripulante de sua alegria. Contudo, alertou que as responsabilidades pessoais não deveriam ser postas de lado a despeito de uma justa comemoração.

Ocorre que Silverio não voltou para o navio com muita vontade de trabalhar, pois durante a madrugada, baixou terra e faltou todo o dia seguinte, prejudicando mais uma vez o serviço das refeições. Quando Silverio  regressou ao navio, após quase 24 horas de ausência, foi chamado à presença do Capitão e desculpou-se dizendo:

– Faltei porque estava comemorando a derrota da França.

Passaram-se dois dias e na grande recife  amanheceu  29 de junho, dia de São Pedro e chega  o momento da grande final entre o Brasil, seleção visitante, e a Suécia, dona da casa.

 A exemplo do confronto anterior, o jogo começou tenso, mas com o passar do tempo a Seleção Canarinho, que, naquele dia, jogou com o uniforme azul, mostrou sua superioridade e levou a Copa com um placar elástico de 5 x 2.

O capitão Bellini protagonizou o nobre gesto de erguer a taça Jules Rimet e até hoje seu gesto é repetido por todo desportista.

Nosso amigo cozinheiro Silverio também repetiu a dose e novamente não apareceu no navio, deixando todos os tripulantes improvisando suas refeições.  No dia seguinte,quando  apresentou-se  a bordo, foi chamado à presença do Capitão e desculpou-se dizendo:

– Faltei porque estava comemorando a vitória do Brasil.

Ocorreu que Silverio não voltou para o navio com muita vontade de trabalhar, tal como fizera antes, posto que, logo na madrugada seguinte, baixou terra e faltou todo o dia restante, prejudicando mais uma vez o serviço e bordo. Quando ele regressou ao navio,  foi chamado novamente à presença do Capitão, mas antes de responder qualquer pergunta que justificaria sua ausência, o próprio Comandante se adiantou dizendo:

– Já sei , você faltou porque estava comemorando a derrota da Suécia.

– Positivo Comandante – respondeu Silverio.

Ato continuo, apresentou-se a bordo um novo cozinheiro para trabalhar no navio e substituir o Silverio.  Este ultimo ficou muito indignado  com a atitude da empresa,  logo questionou o Capitão:

– Por que razão devo desembarcar? Porque o Lloyd esta me tirando do navio, uma vez que todos vivemos um momento feliz e de grande euforia pela nossa vitória?

E o Comandante, ao entregar a passagem de desembarque ao Silverio, respondeu:

– Todos queremos o seu bem e você agora seguirá de volta para o Rio de Janeiro, em tempo hábil de comemorar a chegada triunfal de nossos jogodores, heróis do futebol. Boa viagem!

Fonte:
https://www.revistaintermarket.com.br/a-copa-de-58/