Setor naval afunda

Sem novos projetos da Petrobras, estaleiros começam a fechar as portas e demitem em massa
Planejada pelo governo em 2011 como um projeto para incentivar a indústria e gerar empregos,
a reativação do setor naval teve fôlego curto. Nos 36 estaleiros em funcionamento hoje no Brasil,
não há encomendas novas. No auge dos investimentos, o setor estimou que empregaria 100 mil
trabalhadores. Mas, hoje, são só 37 mil. Os estaleiros que não fecharam as portas tentam se
dedicar a outras atividades, como o reparo de embarcações. O setor sentiu o golpe da crise na
Petrobras e do escândalo da Lava-Jato. O pedido de recuperação judicial da Sete Brasil, empresa criada para intermediar a construção de sondas do présal, agrava a situação. No Rio,
principal polo do país, a arrecadação com ICMS da indústria naval despencou 44%. A euforia da
indústria naval no Brasil durou pouco. O setor, que há cinco anos comemorava encomendas
bilionárias, hoje sofre com a falta de novos projetos. Nos 36 estaleiros em funcionamento no
Brasil, não há construções novas no horizonte, o que está levando muitas empresas a fecharem
as portas. Entre as que se mantêm em operação, o trabalho se restringe à conclusão de projetos
antigos, e a saída tem sido buscar outras opções de negócios, como o segmento de reparo de
embarcações. O marasmo no setor é resultado da combinação entre a crise na Petrobras,
decorrente dos escândalos de corrupção e da queda nos preços do petróleo, e da derrocada da
Sete Brasil, empresa criada para intermediar a construção de sondas do pré-sal.
O cenário se reflete em demissões. Do fim de 2014 até fevereiro deste ano, quase 45 mil
trabalhadores perderam seus empregos. O número, de acordo com o Sinaval, associação que
reúne as companhias do setor, passou de 82.472 para 37.747, uma redução de 54%. Nem no
auge o setor alcançou as previsões de 2011 — de cem mil vagas —, quando a política de
conteúdo nacional ganhava força e prometia dar novo impulso a uma indústria que foi à
bancarrota nos anos 1980.
Mas o fundo do poço pode não ter chegado, dizem empresários e especialistas. O temor é que
um fracasso no processo de recuperação judicial da Sete Brasil — um projeto de US$ 27 bilhões
entre encomendas e investimento do setor — possa dar fim aos 20 mil empregos existentes ao
longo da cadeia de fornecedores. E enterrar de vez os novos estaleiros, voltados para a
fabricação de sondas, como o Enseada Paraguaçu, em Maragogipe, na Bahia, que já demitiu
7.275 trabalhadores. Situação semelhante ocorre com o Jurong Aracruz, no Espírito Santo, que
está em construção, além do Brasfels, em Angra dos Reis, que cortou cinco mil, e do estaleiro
Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Sem receber recursos desde 2014, estes empreendimentos
vivem hoje em compasso de espera.
Edson Rocha, coordenador da Confederação Nacional dos Metalúrgicos e membro do Conselho
Diretor do Fundo da Marinha Mercante, diz que o cenário é reflexo da paralisação do setor de
óleo e gás e de problemas de gestão:
— Muitos estaleiros tiveram problemas comerciais e não conseguiram dar continuidade às
obras. Mas a paralisia no setor afetou a todos. A Transpetro (subsidiária da Petrobras) reduziu
suas encomendas de 49 embarcações para 24, afetando estaleiros médios. A Sete Brasil não
paga aos estaleiros, de grande porte, porque não consegue assinar os contratos com a
Petrobras, que pisou no freio, reduzindo as encomendas de barcos de apoio. O ambiente político
atrapalha tudo, e quem paga é o trabalhador.
O Sinaval critica a falta de continuidade dos projetos no Brasil. “A redução dos investimentos da
Petrobras representa um menor número de campos de produtores a serem desenvolvidos, o que
reduz a demanda por plataformas de produção, navios de apoio marítimo e navios petroleiros
aliviadores”, conclui o Sinaval.
A crise se reflete em todos os polos navais do país. Além do Rio de Janeiro, onde o quadro é de
fechamentos em série de estaleiros e de falta de perspectivas no Brasa e no Inhaúma,
Pernambuco é um dos epicentros da turbulência. Henrique Gomes, presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos do estado, destaca a redução das encomendas do Estaleiro Atlântico Sul (EAS),
que cancelou seu contrato com a Sete Brasil para construir sete sondas e teve uma drástica
redução nas encomendas feitas pela Transpetro. Segundo Gomes, o número de trabalhadores
do EAS passou de 11 mil em 2009 para 3.800:
— Desde 2015, três mil foram demitidos. Não está sendo dada continuidade aos projetos por
causa de Lava-Jato e da crise do petróleo. Muitas empresas que prestavam serviços ao setor
naval foram fechando. Já são seis fechadas e duas em recuperação judicial.
Na Bahia, onde as obras do estaleiro Enseada do Paraguaçu foram paralisadas, o reflexo já foi
contabilizado. Entre novembro de 2014 e fevereiro de 2016, o corte de vagas na região gerou
perdas de R$ 100 milhões, fruto da redução da massa salarial, de acordo com dados do governo
local. É o oposto do que se viu entre 2013 e 2015, quando foram gerados R$ 360 milhões em
serviços executados para o estaleiro, com a contratação de 678 empresas. O PIB (Produto
Interno Bruto) da cidade de Maragogipe, que cresceu de R$ 194 milhões, em 2010, para R$ 753
milhões em 2013, deve recuar em 2015 e 2016. E, segundo o Ministério do Trabalho, 3.588
vagas foram fechadas na cidade no ano passado.
— Hotéis, restaurantes e empresas fecharam suas portas — avaliou Vera Lúcia dos Santos,
prefeita de Maragogipe, do PR.
Diferentemente do que ocorreu na Bahia, as obras de construção do estaleiro Jurong Aracruz,
no Espírito Santo, ainda não foram paralisadas, já que estão 90% concluídas. A empresa,
contratada para construir quatro sondas, está quase terminando a primeira delas com recursos
próprios. Hoje, o Jurong tem 1.800 colaboradores. Mas, diz uma fonte, a continuidade vai
depender do processo de recuperação judicial da Sete Brasil, que reduziu seu projeto de 28 para
dez sondas.
Em Rio Grande, o impacto na economia foi grande com a redução das atividades dos estaleiros
QGI (Queiroz Galvão/Iesa), Rio Grande e EBR. Além da retração das encomendas da Petrobras,
vários controladores de alguns desses estaleiros foram envolvidos nas investigações da
Operação Lava-Jato. Nos últimos dois anos, houve redução de 13 mil postos de trabalho na
região. Hoje, são apenas 7 mil empregados. O EBR está concluindo a construção de módulos de
uma plataforma, e não tem novos projetos na mesa. O Rio Grande não tem projetos, segundo
fontes, já que a construção de oito cascos para os navios-plataforma foram redirecionados para
o exterior. Já o QGI, após a paralisação das atividades por meses, assinou aditivo ao contrato
com a Petrobras em meados de 2015 para a construção e montagem de duas plataformas.
Assim, espera gerar dois mil empregos até 2017, dando pouco alívio à região.
Para especialistas, vários fatores explicam a crise do setor. Um deles é o fato de a Petrobras
estar direcionando parte das encomendas para a China. “A Petrobras anunciou que as
encomendas de plataformas serão direcionadas para a licitação internacional de grandes
integradores”, disse o Sinaval. A estatal destacou que “avalia junto com parceiros a execução no
exterior de parte do escopo das obras de plataformas com o objetivo de mitigar atrasos”.
CRÍTICAS AO PROGRAMA DE CONTEÚDO LOCAL
Maurício Almeida, presidente da Associação Brasileira dos Engenheiros e Técnicos da
Construção Onshore, Offshore e Naval, que conta com 2.800 associados, critica a condução da
política de conteúdo nacional:
— Foram criados polos navais pelo país por interesses políticos e não por razões técnicas. Foi
uma desgraça anunciada. Pensou-se na criação de um setor somente num momento de pico e
não na continuidade de demanda a longo prazo.
Miro Arantes, presidente do estaleiro Vard Promar, também critica a política de conteúdo
nacional, que exige patamares a partir de 50%, em alguns casos. Atualmente, a Agência
Nacional do Petróleo (ANP) estuda a flexibilização das regras. Ao mesmo tempo, o órgão
regulador pretende convocar audiências públicas sempre que uma petroleira alegar que não
conseguiu atingir os índices exigidos, que são definidos em contrato no momento do leilão de
blocos de petróleo.
— É preciso ter bom senso. De um lado,é uma temeridade não ter. Do outro, ter
índices de 70% a 80% em alguns caso é exagero — disse Miro.
Marcelo Gomes, diretor executivo da Alvarez & Marsal, que conduz o processo
de recuperação da Sete Brasil, destaca que as empresas do setor precisam
passar por uma reestruturação. Um exemplo é o Estaleiro São Miguel, no
Rio, que voltou a operar após uma reestruturação.
— O setor naval passa por forte momento de reestruturação por causa da crise da Petrobras e
do novo patamar do preço do petróleo. As empresas precisam se reestruturar operacional e
financeiramente para se adaptar à realidade. Ainda existem oportunidades no setor naval —
disse.

Jornal O Globo – RJ