Petrobras concentra exploração em Libra

Apenas três poços, todos restritos à área de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos, estão sendo perfurados pela Petrobras no mar brasileiro, neste momento. Este é o retrato atual das atividades exploratórias do país. Impactado pelos cortes de investimentos da estatal e das demais petroleiras que operam no país, em meio ao cenário de intensificação da queda do barril, o setor de exploração praticamente parou este ano, depois de um já difícil 2015, e atingiu no primeiro semestre seus níveis mais baixos dos últimos 60 anos.

Enquanto a produção brasileira de óleo e gás cresce, sustentada pela entrada em operação de novas plataformas no pré-sal, levantamento feito pelo Valor, com base em dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP), mostra que foram feitas apenas 16 perfurações de poços exploratórios, em terra e mar, no Brasil, na primeira metade do ano – o número mais baixo para o período desde 1957.
O declínio da exploração no país se deve, em grande parte, ao corte dos investimentos da Petrobras, responsável por nove perfurações entre janeiro e junho – três delas ainda em andamento e outras seis já concluídas. Principal agente do setor, a companhia vem se dedicando praticamente de forma exclusiva ao projeto de Libra – no segundo trimestre, por exemplo, a empresa não perfurou um poço sequer fora dessa área.

Dentro da estratégia de reduzir seu endividamento, a Petrobras decidiu reduzir despesas, focar nos investimentos de retorno mais imediato e postergar projetos exploratórios. Recentemente, a estatal obteve o aval da ANP para adiar, para o final da década, os prazos finais para conclusão da exploração de áreas como Júpiter, no pré-sal; Parque dos Doces, na Bacia do Espírito Santo; e de descobertas em águas profundas no Sergipe.

A redução de suas atividades já se traduziu no balanço do primeiro semestre da companhia, que reduziu em 31% seus aportes em exploração e produção no período, para US$ 6,92 bilhões. Até o final do ano, a expectativa é aumentar um pouco o ritmo dos investimentos, mas ainda assim a previsão é investir US$ 17,5 bilhões em todas as suas áreas de negócios, um montante abaixo dos US$ 20 bilhões inicialmente projetados.

Os cortes nos investimentos em exploração do país, contudo, não se restringem à Petrobras. Fora ela, apenas a Repsol Sinopec, Imetame, Parnaíba Gás Natural e Alvopetro perfuraram algum poço em 2016. No mar, apenas um poço foi perfurado fora de Libra – a perfuração foi feita pela petroleira sino-espanhola, no bloco C-M-539 (Gávea), na Bacia de Campos.

Segundo o diretor-executivo da Accenture Strategy Upstream, Matheus Nogueira, a retração da exploração é resultado da continuidade do cenário de restrição de caixa das petroleiras, em meio à queda dos preços do barril.

“O contexto não mudou muito desde 2015. A Petrobras continua controlando seus investimentos, priorizando projetos com retorno de curto prazo. Quanto às demais petroleiras, o tamanho da área exploratória concedida no Brasil está baixo [em função do intervalo de cinco anos sem leilões, entre 2008 e 2013] e há a questão dos preços em queda. As empresas têm visões de longo prazo, mas acabam postergando projetos devido a restrições de caixa”, avalia.

Segundo o consultor, no entanto, existe a expectativa de que as atividades exploratórias se recuperem a partir de meados do ano que vem. “A retomada [dos preços] vai acontecer de forma gradual, mas não voltaremos aos patamares anteriores [de US$ 100 o barril]. Em 12 a 18 meses, a previsão é que a cotação fique na faixa de US$ 60 a US$ 70 e as empresas voltem a investir mais em exploração”, disse.

O corte dos investimentos em exploração tem um efeito imediato sobre a cadeia fornecedora, desde empresas de sísmica às prestadoras de serviços e fabricantes de equipamentos de perfuração. Segundo dados da americana Baker Hughes, por exemplo, o número de sondas de perfuração em operação no mundo atingiu nos últimos meses os números mais baixos desde 1999.

Para além dos efeitos de curto prazo, a redução do ritmo exploratório traz consequências também para o futuro. Sem investimentos na área, a renovação das reservas do país pode ficar comprometida e o Brasil pode ter problemas para sustentar o crescimento da produção de óleo e gás no longo prazo.

Os efeitos já foram sentidos pela Petrobras ainda no ano passado, quando a estatal adicionou apenas 16 milhões de barris às suas reservas provadas – para efeitos de comparação, a ExxonMobil, mesmo diante da baixa dos preços acrescentou 1,5 bilhão de barris.

A consultoria Wood Mackenzie estima que, devido aos cortes dos investimentos das petroleiras, a expectativa de crescimento anual da produção global caiu para 1,4% ao ano, num período de cinco anos, ante a previsão de 3,4% ao ano, de 2014. A consultoria destaca que os investimentos globais em exploração caíram pela metade desde 2014, para US$ 42 bilhões por ano entre 2016 e 2017.

Para o ano que vem, a intenção do governo brasileiro é realizar uma nova licitação de blocos exploratórios: a 14ª Rodada. A indústria cobra algumas medidas para que a licitação não repita o fracasso da 13ª Rodada, do ano passado.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), o insucesso do último leilão não está vinculado somente ao cenário de baixa dos preços do barril. Dados do IBP mostram que outros países que também optaram por realizar leilões, em 2015, conseguiram atrair mais investimentos que o Brasil, como Moçambique (US$ 691 milhões), Canadá (US$ 1,2 bilhão) e México (US$ 623 milhões) – a 13ª Rodada atraiu investimentos obrigatórios de US$ 55,7 milhões.

A extensão do prazo de validade do regime aduaneiro especial Repetro, ajustes na política de conteúdo local e maior agilidade no licenciamento ambiental são alguns dos pleitos que compõem a agenda da indústria.

Valor Econômico